A fera
A tanto que dessa fera eu me esquivo
Mas, insistente, a face ela me mostra.
Vejo-a assomar à porta
De um chegar furtivo
Que vive sempre a me rodar.
Busca, insistente, outra pessoa
Me deixa aqui a toa
E para de me procurar.
Vivo nessa relutância
Constantemente. Do amor – a procura.
Da solidão – a esquivança.
Mas quem encontra do amor a cura?
Da solidão - a distância?
(pra viver não basta uma só loucura)
MARCAS
Pelas ruas vejo casais
Que alegres vão passando.
Invejo-os, e vou lembrando
No meu corpo teus sinais.
Ó lembranças, que mais
Meu amor vai alimentando,
Invejo os casais passando
Com afetos e rostos angelicais.
A AVENIDA DOS OUTROS
A vida se resume
Num copo de tolices
Enfeitada com uma cereja
De ignorância.
Queria dizer aos meus amigos:
Ola! E ver nos seus olhos
O mundo que aos meus
Nunca existiu.
Queria dizer:
Velhos amigos, são tão perfeitos
Em seus mundos perfeitos
Suas casas perfeitas
Suas famílias perfeitas
Mas eu, caros colegas,
Sou oblíquo,
Sou obtuso.
Não sou igual a ninguém.
Diferente de todos os iguais
Que enxergam um mundo
Pela fresta da ignorância.
Tenho em mim toda a paz
Da insatisfação.
Meus amigos? São perfeitos
Em suas camas de enleio.
Eu, no enleio da minha imperfeição.
IMPERFEIÇÃO
Olhaste meus olhos, e viste lágrimas.
Olhaste minha vida, e viste erros.
Caminhaste meus caminhos, e eram tortos.
Procuraste em mim portas, e eram falsas.
Buscaste em mim refúgio, e eu era fraco.
Ouviste minhas palavras, e eram vazias.
Buscaste em mim felicidade, e eu era triste.
Procuraste em mim o amor, e eu era egoísta.
O MAR
Vi nos teus olhos o mar.
(que não verdes nem azuis)
Vi o mar nos teus olhos.
E que mal faz amar?
Depois que vi os teus olhos,
Já não vejo outro mar.
Vi os teus olhos azuis,
Vi o céu nos teus olhos.
Vi nos teus olhos o mar.
Que mal faz amar?
Depois que vi os teus olhos,
Já não posso ver outro céu,
Já não posso ver outro mar.
Rotina
No rubro que afeta o arrebol,
Homens, com seus rostos estupefatos,
Antes da lida corriqueira,
vão formigando o asfalto;
com suas marmitas,
roupas rotas, rumo à labuta.
Uns alegres a cantarolar...
Outros, cheios apenas de sua força bruta...
A procissão segue sua marcha...
Homens seguem em manada...
Sem poesia... o róseo lentamente avermelha
O horizonte, que logo se transforma em claro dia.
Só mais um, despercebido, a enfeitar
A longa jornada.