O cortejo
A primeira vez que aquele pensamento me veio, tentei expulsá-lo. Não era coisa que se pensasse. Da segunda vez, já não o repeli de imediato, e até formulei uma sequência de fatos, mas o pudor me fez expurgá-lo. Depois ele começou a vir insistente, quando eu menos esperava. De repente, lá estava eu possuído por aquele pensamento outra vez. Depois de lutar, verdade que não foi muito, fui vencido e até já dava retoques para que ficasse melhor a situação.
Se minha mãe morresse?! Não! Melhor! Se meu pai morresse?! Não foi muito difícil decidir entre o pai e a mãe. Afinal, mãe só se tem uma. Já o pai...
Decidido. Meu pai morreria. Não me lembro se chorava, quando do pensamento. Era muito dúbio, pois o enfoque não era o choro, nem a morte em si. Era outro.
A casa se encheria de gente. Eu me conduziria para o fundo do quintal, todos na casa em uníssono choro, enquanto eu estaria sentado no fim do muro, cabeça baixa, melancólico. Então, por fim, chegaria a razão de todo o meu arquitetônico pensamento infame: MARIANA, o verdadeiro motivo desse pensamento louco. Ela perguntaria por mim, todos diriam onde eu estaria. Ela chegaria com expressão de velório, me abraçaria, diria que me amava e que nunca iria me deixar. Essa frase valia o delírio. Na verdade era a causa dele.
Toda essa arquitetura era com o fim único de conjeturar o meu encontro com MARIANA no dia do velório do meu pai. Como já havia decidido que era ele quem iria morrer, pelo menos na conjetura.
Passado algum tempo, meu pai recebeu a chave do apartamento de sua morada eterna. Vi seu corpo perder a vida, dá o último suspiro. Já em casa, vi quando vestiram ele cuidadosamente em seu terno de viagem, encomendado para aquele momento. Vi colocarem ele no caixão. Mas o que não me saia da cabeça era o maldito encontro com MARIANA.
Cada vez que um carro parava à porta, eu pensava: é ela! E corria para o fim do quintal. Assim se sucedeu várias vezes. Nada. Veio a noite. Nada. Fui, desta vez, para a frente da casa e lá fiquei, triste. A tristeza não era pelo falecido, mas por quem estava viva. Muito viva. Não só como indivíduo, mas principalmente no meu coração.
Levanto os olhos. Um carro. É ela! Corro para o fim do quintal mais uma vez, sem nem perceber que era muito tarde da noite. A escuridão reinava. Ficar ali na frente era jogar por terra o que há tanto havia conjeturado. Não era ela! Me encaminhei para dentro de casa, parei ao lado do caixão, vi o meu pai pálido e inerte. Me dei conta de que era real. Chorei.
Chegou a hora do enterro. A família em prantos. Minha mãe era quem mais se afligia. O caixão é levado para o carro funerário. Novamente só me vem ao pensamento a ausência de MARIANA. Ela não veio! Será que não soube? Impossível! Os sentimentos se misturavam: angústia e aflição pela morte de meu pai e desilusão pela ausência de MARIANA. Não só pela ausência em si, mas por todo um plano ter sido frustrado.
Entramos no carro eu, minha mãe e o motorista. A multidão de carros serpenteia o caminho do cemitério. Minha mãe chora incessantemente, e eu só pensava em MARIANA. Quando em meio ao trajeto vejo, os olhos turvos pelas lágrimas, um casal namorando. Na verdade estavam se beijando no exato momento em que olho. a mulher, que estava de costas para nós, vira-se para observar o cortejo. Meu semblante toma a cor e a temperatura do corpo que vai no caixão. Apenas uma voz lenta e inaudível sai da minha boca: MA-RI-A-NA.
Nenhum comentário:
Postar um comentário